Nos meses de 2009, aprendi que a parte mais difícil da vida é dizer sim. Ao contrário do que muita gente diz, falar não pode ser bem fácil. Falar não e desistir, por exemplo, é bem mais simples. A gente diz não e renuncia um relacionamento maduro, um emprego legal, uma família unida, amigos incrivelmente companheiros. Basta dizer não.
Até que um belo dia, 25 ou 37 anos depois, você percebe que quer dizer sim. Percebe que houve um dia em que você disse sim várias vezes e foi bom. E é quando você começa a dizer sim pra você mesmo que você consegue dizer também pro resto do mundo.
A gente precisa se permitir chorar, ficar triste, gritar, sentir mágoa, raiva. Mas a gente também precisa se permitir ser feliz, celebrar, estar bem, dizer sim.
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Livro de Horas
Miguel Torga
Aqui diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.Me confesso
o dono das minhas horas
O dos facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


