Há marcas ainda mais indeléveis que tatuagens. Algumas que carregarei por muito tempo (até o fim da vida, eu quero dizer).
Não tem jeito, porque sem essas marcas não sou. Não me sou. Como é difícil aceitá-las.

Que graça é o mundo quando acontece uma coisa boa e a gente está bem.



Depois de duas semanas sonhando com a mesma rotina da vigília (saindo de casa para ir trabalhar, trabalhando, conversando sobre o trabalho) sonhei com minha própria libertação.
No sonho, eu jantava em um restaurante muito gostoso, muito bem acompanhada, quando a música ambiente dá lugar a Vou morar no ar, do Casa das Máquinas. Todos — clientes e funcionários — começaram a cantar a música, balançando os braços de um lado para o outro, num ritmo tranquilo.

Abra que eu quero ver esse céu azuuuuuul
Abra que eu quero olhar esse mar do suuuuul
Abra que eu quero voar o mais alto que eu puder
Um dia eu vou sair
Vou morar no aaaaaaaaaaar

Acordei calma e percebi que a da noite anterior foi uma das decisões mais acertadas que já havia tomado.

Perpétua Ababelado era o tipo de pessoa que se divertia muito e sempre e em qualquer lugar. Desaprendeu. Ficou triste, reclusa, quieta. Sempre preferindo ficar sozinha. Passou a esperar o dia em que uma luz vinda-não-sei-de-onde iluminaria tudo de novo. E continua lá, esperando.

Hoje, um texto de João Cabral de Melo Neto. Um trecho d’Os três mal-amados.

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Nos últimos dois dias, o Universo decidiu me dar uma chance de ter paciência. Acho que não passei no teste. Até consegui controlar impulsos violentos e manifestações escancaradas de raiva. Mas, em pensamento, fui uma assassina. Matei, bati, xinguei. Em determinado momento, desferi uma sequência linda de golpes perfeitamente cadenciados: um jab, um direto, um cruzado de esquerda e um upper de direita. Quase poético.

Se o Universo me der  uma nova chance, vou tentar aproveitá-la melhor. Prometo.

A morte é um silêncio exigente, que acua até o ponto em que você cede e chora. É um silêncio rígido, que convive com o barulho com tanta naturalidade que mal se pode acompanhar. Ela sonda, espia, vigia e persegue insistentemente, porque chega o momento em que se abre mão da vida. Já não se pode mais. Morte.

Enquanto ela não chega, inventamos a vida. Inventamos uma vida profissional, outra pessoal, inventamos o lazer e também alguns momentos falando amenidades à beira de uma cama de hospital. “Marcio é um nome bonito, eu gosto de Marcio”, “Eu gosto do Marcio, vó”. Sorriso.  E de novo aquele silêncio exigente e incansável.

E esse ciclo de saudade
que não se completa
e que tortura
até as três da manhã.

Chegou ao trabalho, ligou o computador, destrancou a gaveta, abriu o Outlook, leu alguns e-mails que só seriam respondidos mais tarde. Em cinco minutos o celular já apitava, lembrando-a de algum compromisso.
Abriu a agenda de papel, procurou a caneta azul com que sempre anotava as tarefas do dia. Adquiriu esse hábito: afazeres escritos em azul; tarefas concluídas riscadas com caneta vermelha. Cadê a caneta azul? Logo cedo, pensou.
Em pé, de frente pro resto do andar: Quem foi o filho da puta do corno que roubou a porra da minha caneta azul?! Deve ter sido o mesmo merda do cacete que comeu metade do bolo de aniversário que estava guardado — guardado!!! —  na copa! Ou foi o cornudo mal-comido do caralho que…— Respirou fundo. Deixa pra lá. Pode dar justa causa.

Hoje consegui completar 5 km de corrida em 33 minutos. Deve parecer ridículo pra quem corre há bastante tempo, pros atetlas e tal. Pra mim, foi uma conquista. Desci da esteira, fui pro vestiário da academia, tomei banho, me arrumei, tudo isso pensando nos 5 km. Que sensação boa quando os 4.99 viraram 5 no painel da esteira.

Estava secando o cabelo com o secador, quando uma pergunta me trouxe de volta dos meus devaneios: “Você lava o cabelo todo dia?”. A cara de espanto e de nojo (ah, as ironias do universo…) da moça quase me deixaram constrangida. Não me custaram nem dois segundos pra me dar conta de que rolava uma inversão de valores pesada ali. Dos meus valores, pelo menos. Quer dizer, a moça em questão havia corrido durante meia hora, tanto quanto eu, umas duas ou três esteiras pra esquerda. E ela não tinha lavado o cabelo, tomou banho apenas. E estamos falando de um dia em que às 06h15 fazia 26 ºC. A resposta estava prontinha, na ponta da língua: “Sim, lavo o cabelo todos os dias em que suo muito, como na aula de hoje. Não consigo ficar com a cabeça e o cabelo suados”. Ela não gostou muito da resposta. E justamente por isso, me deu vontade de responder: “Eu acho você porca por ficar com o cabelo suado só pra não perder a chapinha, mas eu guardo isso pra mim, não preciso ficar te falando”. [Sorriso simpático] Deixei pra lá. Cada um com as suas manias e hábitos de higiene.

E foi então que minha conquista ficou ainda mais especial: consegui completar os 5 km e com bons hábitos de higiene. Obrigada, universo.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.