Chegou em casa às 22h. Estava esgotada física e emocionalmente. Os dias têm sido assim, pensou, paciência. Decidiu comer, relaxar um pouco, assistir a qualquer programa na TV. Depois ligaria o aparelho de som, recém-comprado numa tentativa meio vã de sublimação das frustrações. Já tinha aprendido na aula de literatura há uns quatro anos que tem coisas que simplesmente não dá pra sublimar. Mas insistia.
Enquanto comia, decidiu olhar ao redor e foi imenso o susto quando viu uma mariposa pousada no ventilador de teto. Era do tamanho da sua mão, que para mão de gente é até que pequena, mas para uma mariposa… Mal conseguiu terminar de mastigar o pedaço de pizza de ontem que tinha na boca. Mussarela, tomate, alcachofra, orégano: tudo ficou com gosto de mariposa. Nessa hora lamentou não ser G.H., teria a chance de uma epifania.
As mariposas sempre vinham pro apartamento dela, incrível. Não importava o quanto ela fechava as janelas. Será que mariposa pensa? Não é possível. Será que elas passam parte do tempo arquitetando planos de invasão e ataque às pessoas que morrem, morrem de medo de mariposa? Como você é ingênua… É claro que elas fazem isso! E desta vez, veio a rainha, a maior mariposa que há. Do tamanho da minha mão.
Fechou a porta do quarto para que a mariposa não fosse pra lá. Desligou a TV. Saiu devagar da sala. Se a mariposa voasse… Parou por aí. Entrou no quarto com o tradicional copo de água e decidiu que o dia acabava por ali.